Júlia, 14 anos. Ou melhor quase 15. Desde a sexta série, por um motivo ainda não descoberto, passou a se interessar muito por Língua Portuguesa e Literatura. Talvez o verdadeiro motivo tenha sido porque na quinta série uma professorazinha de Matemática disse que todo aluno que tem dificuldade na sua matéria, tem também em Português. Ela havia comprado essa briga e queria mostrar que não era bem assim. Teimosia, companheira fiel de Ju. Aprendeu a gostar de roçar a sua língua na de Camões e criou o maior complexo com a tal de exatas. Há quem duvide de que ela nunca aprendeu e confirme que era pura implicância, tirava notas ruins de propósito em Matemática. Só para provar para a professorinha de que ela estava errada no seu julgamento. Assim, desde a fatídica sexta série, Júlia tirava total em Língua Portuguesa. Notas vermelhas, porém recuperáveis, em Matemática.
No primeiro ano do Ensino Médio tudo mudou. Sobretudo, a forma em que os seus novos professores abordavam e cobravam as matérias. Conheceu o seu novo professor de Português e Literatura. A princípio não gostou dele. Ela tinha a impressão de que ele queria só se mostrar nas aulas, intimidar um pouco os alunos com seus conhecimentos e só. Com o tempo ela viu que não era bem assim. Quer dizer, tudo o que ela achou antes, ela confirma; mas parece que ele tinha algo interessante que ela não sabia direito explicar. Ao mesmo tempo que ele se exibia, ele se mostrava muito interessado no que Júlia já havia aprendido. Mas ele ficava muito feliz quando sabia que foi com ele, que sua aluna havia aprendido o significado de alguma palavra ou qualquer coisa que era inerente à matéria. Apesar do pé a trás, que ela tinha com ele, ela ficava encantada com todo o seu conhecimento. É preciso fazer uma pequena salva de que os outros professores de Júlia eram tão horríveis, que qualquer um mais ou menos se destacaria.
Há quem afirme que daquela forte admiração entre os dois tinha nascido um romance. Mas nada que tenha sido dito claramente. No máximo olhares um pouco eloqüentes ou recadinhos nas provas. Embora ninguém confirme nada disso. O que sabemos é que Júlia e seu professor eram pessoas bem difíceis e bem parecidas. Tinham aquele modo blasé de encarar a vida, aliás ela mais do que ele. Era uma forma defensiva de não se decepcionar com o mundo. Ora se elogivam, ora se criticavam ferrenhamente em público. Sabe aquela velha história que entre o amor e o ódio há uma linha bem tênue?
Sabemos que Júlia terminou o terceiro ano. Eles nunca sentaram para resolver seus problemas. Se é que existiram! Acabou o ano eles tendo muitas discussões em público, por causa da forma que ele dava aula, que de fato não agradava mais e ele reclamando da aluna que ela tinha se transformado. Segundo ele, ela já tinha sido melhor. Ela dizia o mesmo. Cá entre nós, uma relação em que começam a discutir se a qualidade da pessoa diminuiu, durante o tempo, já dá sinais de fracasso.
Essa aqui não é uma história de uma Lolita, apesar de um dia Júlia ter querido ser. Ou não. Tudo terminou entre eles. Se é que um dia começou. Ah, mas começou! Não tem como enganar que aqueles olhares e aquela admiração eram de graça.
16 comentários:
Kamilla! Como assim?! Me identifiquei muito com a Júlia. E agora vou ficar com a pergunta na cabeça... a de se eles tiveram algo ou não. Esses romances de professor e aluna me chamam muito a atenção.
Gostei do conto, muito fofo! Continua escrevendo outros, tá? Gostei do seu jeito de escrever. :-)
Um beijo!
Essa relação aluna/professor é bem intensa. Há de quem não saiba interpretar e leve para o lado malicioso... Mas né. Eu gostei do teu conto. Me identifico em algumas partes com outro professor meu :)
Beijos!
Que lindo texto! Adorei sua forma de escrita, e histórias sobre esse tipo de relacionamento são sempre surpreendentes. Engraçado, que embora o sentimento talvez realmente existisse entre eles, não foi preciso começar um relacionamento. As vezes é melhor amar em silêncio.
Uh la la! E agora, José? Cadê os protagonistas da história pra tirar essa dúvida? Ah não, a blogueira não os deixou, CLARO! Vamos ficar aqui, vivendo e pensando o que aconteceu. Porque a blogueira é meio sadomaso, sabe? Tsc, essas pessoas, meu Deus...
Hahaha brincadeiras a parte, adorei! E fiquei curiosa! E com raiva da professora débil que não tem razão alguma. Eu tirava notas boas em PT e horríveis em MT simplesmente porque Exatas nunca foram meu forte, oras.
Hum.....alunas e professores...isso me deixa tensa. Eu vou ser professora e não me vejo numa situação dessas.
Kamilla em seu treinamento Jedi para Machado de Assis me deixou na dúvida: rolou ou não rolou algo entre eles?
Lindo, Kami :)
beijos
Adorei, Ká! Vc escreveu muito bem!!!! É aquele típico post que a gente fica sem saber o que comentar...rs
beijos!
Será que rolou alguma coisa entre eles no final da aula e pápápá...? Hummmm... Mas enfim. Não é por que as pessoas trocam aqueles olhares doces e demorados e mágicos, que elas estão apaixonadas. Talvez até estejam. Aluno e professor é uma relação velhinha, velhinha, velhinha, tudo é possível.
Eu tiro notas ruins em todas as matérias, como faz? q
muito legal a historia, eu ja tive admiração e paixonite por professor
acho que sempre há. professores, mesmo que negamos, são incrivelmente envolventes nessa idade.
Adorei o conto. Eles eram tão parecidos que se desentendiam a toa xD
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Bjocas
O poder de sedução de alguém q te ensina é inegável!
Fiz um balanço geral das férias. Confira. Bjs e fik c Deus.
Que envolvente! E ainda fiquei com a pulga atrás da orelha no final. Esses romances "proibidos" são os que mais encantam nossos corações apaixonados. Bjs
Ah, minha filha... eu já fui Lolita e acho que até o Nabokov se revirando debaixo da terra ficou sabendo!
Lolita seria por causa do romance russo de Nabokov...
Sempre nos apaixonamos platonicamente pelos nossos professores.
Eu ja me apaixonei e nunca sentei para resolver o dilema... e nem sentaria...
Teve uma amiga que resolveu. Esta casada até hoje com ele...
Abraços
Gostei do título, mesmo! Essa relação é sempre interessante, só não curti que fosse com o professor de português (porque eu desprezava o meu toda a vida).
bom texto!
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